segunda-feira, 18 de maio de 2020

ALTO TAMANDUÁ DE AVELINO BIOEN CAPITANI

O jornalista  Alício de Assunção convidou para uma caminhada. Sim, em plena pandemia no país - estou confinada desde o dia 18 de março! Tomara que o vírus não chegue nesse lindo interior para onde venho desde 2012.

Marla de Assunção está bem prevenida e com intensa produção. As encomendas chegam até Lajeado. Tem para crianças e adultos. Comprei as minhas!
 Alício convidou porque achou que eu deveria estar lambendo as paredes...
Não estava errado. Uma tarde de sábado, véspera do Dia das Mães,  feliz da vida fui respirar ar puro e esticar as pernas.  Mantendo a distancia logo iniciamos a caminhada.
Havia outro motivo:
"Vem conhecer onde Avelino Capitani nasceu e viveu a infância." 

Alício sabia do meu interesse: 

A caminhada guarda uma sombra generosa
e o silêncio absoluto toca a alma da gente.
Até os bichos percebem que são dias seguros para encarar uma estradinha, 
procurar água e comida.
Não há casas, não há plantações,
não há maquinas, nenhuma pessoa...


 Apenas o tempo,
o som dos pássaros
e de algum bicho correndo pelas capoeiras secas.

"Nas tardes tristes, eu subia o morro e sentava numa pedra para escutar a natureza. 
O que há além daquelas montanhas?" 
escreve Capitani no seu livro "A rebelião dos marinheiros".

 Alto Tamanduá, pouco mais de 150 km distante de Porto Alegre. 
Passe por Marques de Souza na BR 386. 
Antes da subida à Progresso, à esquerda, entre na vila de Tamanduá. 
Informe-se e toca para Alto Tamanduá.
Capitani nasceu em 18 de agosto de 1940.
Vive hoje em Porto Alegre.
Depois de andar uns três quilômetros, ou menos, 
a torre da igrejinha lááá no meio da mata.

"A cada manhã o sol parecia despontar antes no vilarejo 
e tudo explodia em alegria e excitação."
"A cada dia o ciclo recomeçava naquele vale, 
onde o tempo era contado por colheitas,
e lembrado, apenas se foram boas ou ruins."
Adolescente, Capitani deixou família e colegas em Alto Tamanduá
Em 1959 entrou para a Escola de aprendiz de Marinheiro, em Florianópolis.
 Um ano depois, ingressava na Marinha do Rio de Janeiro.
(1º lugar no concurso fotográfico de Progresso, de Alício de Assunção)

Em abril de 1964, o presidente do Brasil, Jango Goulart, 
é derrubado por um golpe militar.
Um mês antes, acontece a revolta dos marinheiros 
que lutava por melhores condições de trabalho 
e reconhecimento de sua associação. 


Envolvido na rebelião, Capitani é preso.


 Alício de Assunção fez uma reportagem bacana no jornal O Informativo desse sábado e conta um pouco da história de Avelino Bioen Capitani.

Acesse https://www.informativo.com.br/geral/uma-historia-acima-dos-morros,358270.jhtml?fbclid=IwAR0SoVfEaFoT3DovqUGLMl0saJULPkDweZ64W6KPXPisCy7EmL8OORXI7QE


 O abandono da igrejinha na beira da estrada comove. 



O verde abusado aguarda permissão para se refugiar do calor.


 Um vazio... O sino foi retirado por um frei 
e vendido para outra igreja na região.

O piso hidráulico intacto e bonito. 
Sinais denunciam a última missa...
Ha dez anos, a última missa.
Que pena que a comunidade abandonou a igrejinha...

 O livro de Avelino posa junto a doação
que sua família fez à igreja.


Célia Berté, 75, imã de  Capitani, mora em Lajeado:
"Espelhou-se muito em nosso pai, que era um homem dedicado 
às causas comunitárias lá no Alto Tamanduá."
Capitani foi perseguido, preso e torturado:
"Não guardo ódio ou rancor. Os meus torturadores já perdoei.
Apenas guardo algumas sequelas físicas e mentais e estas tendem a desaparecer.
Tenho a sensação de ter vivido 200 anos."

  Do outro lado da estrada, em frente à igreja, uma escola abandonada.
Cavalos com seus cavaleiros estúpidos deixaram rastros no seu interior.
Ao lado da escolinha,  a única certeza por todo e sempre.
 Família Bioen
 Família Giovanella
 Um silenciar eterno.
Registrada nossa emoção:
uma  história do Brasil com participação  de alguém
que foi  descobrir o que  havia atrás daqueles morros
no Vale do Taquari.
 Voltamos para a estrada,
mas Alício ainda reservou uma surpresa...
Saímos da estradinha e enveredamos pelo mato.

 Equilibrando nos troncos, descemos um barranco
para chegar até o Arroio  Tamanduá.
 O cenário é lindo e triste, 
apenas um fio de água cristalina
cobre as entranhas do leito.
 Inacreditável que essas águas já cobriram a estrada!
 Para dizer a real... o  lugar é  mágico
e lamento não ter uma câmera melhor,
só meu velho celular.
 Conversamos ainda sobre Capitani nesse fim de tarde que termina tão rápido.
 Jorge Ben dedicou ao  jovem idealista, uma música, quando soube de sua participação clandestina na Guerrilha de Caparaó – o primeiro foco guerrilheiro no Brasil. Foi mais ou menos nessa época que surgiu o codinome que  eternizou o morador de Alto Tamanduá: "Charles Anjo 45".

 "Oba, oba, oba Charles
Como é que é
my friend Charles?"

 "Charles Anjo 45
protetor dos fracos
e dos oprimidos"

"Robin Hood dos morros"

"Rei da malandragem"

  "Um homem de verdade"

 "Com muita coragem"

"Como vão as coisas Charles?"


Ops, como vão as coisas, Avelino?



Laura Peixoto - 50 anos e outras histórias